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Por que algumas pessoas se sentem bem com poucas horas de sono

A ciência começa a desvendar a propensão genética para dormir ou permanecer em vigília. É uma revolução na crença de um padrão universal de descanso

Por Giulia Vidale Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 21 ago 2020, 06h00 • Atualizado em 4 jun 2024, 15h36
  • Quem dorme pouco, menos de seis horas por noite, e ao acordar desperta vivíssimo, pronto para uma longa jornada, costuma celebrar essa invejável capacidade. O ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama, o empresário Elon Musk e o governador de São Paulo, João Doria, não perdem a chance de informar a meio mundo que, por se entregarem pouco tempo aos braços de Orfeu, trabalham mais. Relatos históricos mostram que Leonardo da Vinci e Benjamin Franklin eram dados a sair da cama com o dia escuro. Não há estatística confiável do tamanho da parcela da humanidade afeita a seguir nessa toada, distante das oito ou nove horas indicadas para a idade adulta (veja o quadro ao lado) — a novidade é que a ciência começa a entender, mais detalhadamente, o funcionamento do sono curto.

    Recentes pesquisas demonstram que, desafiando o lugar-comum, não existe um padrão universal e pode haver propensão genética. Ou seja: cada pessoa tem seu tique-taque interno próprio, um relógio biológico único, intransferível — por isso umas precisam de mais tempo na horizontal e outras, de menos. É descoberta fascinante, que ajuda a responder a uma indagação permanente: por que alguns dormem tão pouco e acordam tão bem e muitos brigam para manter os olhos abertos durante o dia?

    Um casal de pesquisadores da Universidade da Califórnia, em São Francisco, os neurologistas Louis Ptacek e sua mulher, Ying-Hui Fu, parecem ter encaminhado a resposta. Eles identificaram genes atrelados a essa turma para a qual a vigília é a norma. Há uma década, Fu identificou o primeiro marcador genético ligado ao sono curto, mutação que permitia ao cidadão obter em escassas seis horas de sono os mesmos benefícios para a saúde de quem dormia oito horas, sem alteração genômica. Em 2019, Fu e Ptacek descobriram mais dois genes, e acabam de enviar para publicação evidências de uma quarta alteração. Os indivíduos que dormem pouco apresentam sinais evidentes de impulsividade e motivação por recompensas, ferramentas que contribuem, supostamente, para o sucesso profissional. Mas há um ponto ainda intrigante: saber qual o tamanho da população afeita a essa “vantagem competitiva”. Estudos preliminares indicam ser apenas 1% — é, pouco, mas um atalho para vastos campos de avanços em uma área da medicina pouco conhecida, misteriosa.

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    O que se sabe: dormir muito pouco é sinônimo de problemas de saúde, como o risco de obesidade, distúrbios psiquiátricos, diabetes do tipo 2 e alguns tipos de câncer. Contudo, insista-se, é uma generalização que começa a ser desmontada. “Há um parâmetro saudável individual”, diz a bióloga Claudia Moreno, vice-presidente da Associação Brasileira do Sono. “É uma condição que pode ser avaliada de maneira muito objetiva, pela sensação de bem-estar de cada pessoa depois de uma noite de sono, independentemente da quantidade de horas e do período do dia.” Algumas são matutinas, com mais energia no início do dia; outras, vespertinas e gostam de ficar acordadas até tarde. São padrões regulados pelo chamado ritmo circadiano, um ciclo de 24 horas que faz parte do cronômetro interno do corpo — cada qual tem o seu, regido geneticamente, como se verifica agora, mas influenciado por estímulos externos, como luminosidade, clima e temperatura. O marcador de tempo biológico é que dita a liberação de hormônios, como a melatonina e outras substâncias químicas que afetam o sono e a vigília. Muitas das queixas de dificuldade para dormir vêm de pessoas que lutam contra a própria natureza. Na verdade, podem não ter nenhum problema, apenas a expectativa de que precisam repousar por um determinado período de tempo.

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    Há poucas certezas absolutas — como a de que adolescentes precisam dormir mais tempo (em razão da imensa energia demandada pelo crescimento) e idosos podem dormir menos (um agrupamento neurológico associado aos padrões de sono é “desligado” com o avançar da idade). De resto, há sombras, que começam agora a ser clareadas pela genética do sono. É área em que se debruçam os especialistas, porque dormir é vital e a dificuldade de relaxar, incômodo monumental. No Brasil, 45% dos cidadãos afirmaram, em levantamento recente da Associação Brasileira do Sono, ter tido algum problema relacionado ao sono, sobretudo insônia e apneia. Foi sempre assim e ainda mais durante a pandemia, dado o volume de temores. Não há dúvida, como diz a biomédica Monica Andersen, diretora do Instituto do Sono, de São Paulo: “O sono é o principal termômetro de um cotidiano feliz”. E valerá sempre a frase do escritor Mário de Andrade (1893-1945): “Que coisa misteriosa o sono!… Só aproxima a gente da morte, para nos estabelecer melhor dentro da vida”.

    Publicado em VEJA de 26 de agosto de 2020, edição nº 2701

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