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Promessas também falham: o que aconteceu com nova droga para tratar ‘colesterol herdado’

Medicamento inédito para baixar níveis de Lp(a) não cumpriu desfechos esperados

Por Carlos Eduardo Barra Couri Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 11 set 2026, 09h10 | Atualizado em 11 set 2026, 12h27
Promessas também falham: o que aconteceu com nova droga para tratar ‘colesterol herdado’ Priorize VEJA no Google

Imagine essa pessoa: não fuma, caminha todos os dias, tem pressão controlada, glicemia perfeita e um colesterol que faria inveja a qualquer um. Mesmo assim, carrega no sangue um fator de risco invisível, herdado dos pais, que os exames de rotina raramente revelam.

Esse personagem existe, e não é incomum: estima-se que uma em cada cinco pessoas no mundo tenha níveis elevados de uma partícula chamada lipoproteína(a), ou simplesmente Lp(a).

A Lp(a) é uma prima próxima do LDL, o famoso “colesterol ruim”. A diferença está em uma peça extra grudada à sua estrutura, que a torna especialmente perigosa. Além de se depositar nas artérias como o LDL, ela favorece a formação de coágulos e acelera a calcificação dos vasos e da válvula aórtica. É, ao mesmo tempo, entupimento, trombose e enrijecimento — três problemas em uma só molécula.

Há ainda uma característica que a diferencia de quase todo o resto da cardiologia: seus níveis são determinados quase inteiramente pelos genes e permanecem estáveis a vida inteira. Não adianta cortar gordura, correr maratonas ou perder peso. A Lp(a) com que você nasce é, essencialmente, a Lp(a) que você levará até o fim.

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Por isso, a última Diretriz Brasileira de Dislipidemias, publicada em 2025, recomenda dosá-la ao menos uma vez na vida adulta. Basta um exame de sangue, feito uma única vez, para descobrir se esse fator silencioso está presente.

E quando está? Aí mora o incômodo. Valores acima de 50 mg/dL (ou 125 nmol/L) já funcionam como um agravante, capaz de reclassificar um paciente de risco baixo para intermediário, ou de intermediário para alto. Acima de 180 mg/dL, o próprio paciente passa a ser considerado de alto risco cardiovascular.

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O problema é que, até hoje, descobrir a Lp(a) elevada se parecia com ler uma má notícia sem poder fazer nada a respeito: nenhum remédio disponível baixa essa partícula de forma comprovadamente útil. As estatinas, pilar do tratamento do colesterol, não a reduzem — e podem até elevá-la ligeiramente.

Foi por isso que os olhos da cardiologia mundial se voltaram, nos últimos anos, para uma nova geração de medicamentos desenhados especificamente para desligar a produção de Lp(a). O mais adiantado deles, o pelacarsen, conseguia reduzir a partícula em até 80%. A pergunta de um bilhão de dólares era: baixar esse número se traduz em menos infartos e derrames?

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A última prova

A resposta chegou com o grande estudo Lp(a)HORIZON, que acompanhou mais de 8.300 pacientes com doença cardiovascular e Lp(a) elevada. Ele mostrou que o pelacarsen, da farmacêutica Novartis, reduziu de fato os níveis da partícula — mas não diminuiu o risco de eventos cardiovasculares em relação ao placebo (uma dose inerte para fins de controle).

O resultado foi neutro. É um lembrete humilde de uma verdade que a medicina precisa repetir sempre: baixar um número no exame não é o mesmo que salvar vidas. Só ensaios rigorosos, com desfechos reais, podem provar que um tratamento vale a pena.

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A notícia frustrou, mas não encerrou a história. Outras moléculas seguem em testes decisivos, e cada uma reduz a Lp(a) de um jeito diferente.

O olpasiran, da Amgen, e o lepodisiran, da Eli Lilly, são injeções aplicadas a cada poucos meses e derrubam a partícula em mais de 90%; seus grandes estudos de desfecho — o OCEAN(a) e o ACCLAIM-Lp(a) — devem trazer respostas entre 2028 e 2029.

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Há ainda o zerlasiran, em estágio semelhante, e uma aposta particularmente sedutora: o muvalaplin, o primeiro comprimido — não injeção — capaz de reduzir a Lp(a). São caminhos distintos para uma mesma pergunta que o HORIZON deixou em aberto.

Enquanto a ciência não fecha essa conta, o que fazer diante de uma Lp(a) elevada? A resposta é menos glamourosa, porém poderosa. Se não podemos, por ora, mexer nesse fator, podemos ser implacáveis com todos os outros. Quem tem Lp(a) alta deve buscar metas mais rígidas de LDL — com estatinas e, se preciso, medicamentos mais potentes —, controlar rigorosamente a pressão, o açúcar e o peso, abandonar o cigarro e manter-se ativo.

Vale também investigar a família, já que se trata de uma herança genética, e, em casos selecionados, usar exames de imagem, como o escore de cálcio coronariano, para medir o quanto essa vulnerabilidade já se traduziu em doença nas artérias.

No fim, a Lp(a) nos ensina algo sobre a própria medicina. Nem toda descoberta vem acompanhada de uma solução imediata, e conhecer um risco já é o primeiro passo para enfrentá-lo. Você não escolhe a Lp(a) que herdou. Mas, sabendo dela, escolhe tudo o que faz a partir daí — e, muitas vezes, é aí que mora a diferença entre adoecer e envelhecer com saúde.

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