Temperaturas extremas e poluição elevam risco de danos ao coração, aponta novo estudo
Pesquisa indica aumento de eventos cardiovasculares durante picos de temperatura e reforça papel da poluição como fator agravante
A análise reuniu dados de mais de oito milhões de pessoas no leste da Polônia, entre 2011 e 2020. A proposta era entender se, nos dias de temperaturas mais extremas, os eventos cardiovasculares também subiam. Para isso, os pesquisadores cruzaram registros de hospitalizações e mortes com dados ambientais.
No período analisado, foram mais de 573 mil eventos desse tipo e 377 mil mortes cardiovasculares. E o padrão mostra que tanto o calor extremo quanto o frio intenso elevam o risco, mas cada um à sua maneira.
No caso do calor, a ação é mais rápida. No mesmo dia da exposição, os eventos cardiovasculares aumentaram 7,5% e as mortes, 9,5%. Já o frio tem um efeito mais lento e gradual: o risco vai subindo nos dias seguintes, chegando a aumentos de até 5,9% nos eventos e 6,9% na mortalidade cardiovascular.
Trabalhos anteriores já vinham mostrando essa associação. Uma revisão com base em centenas de estudos indica que, a cada 1°C a mais, a taxa de mortalidade por razões cardiovasculares cresce 2,1%. Durante ondas de calor que duram vários dias sem trégua, o índice chega a 12%.
O próprio cenário brasileiro pode ser exemplo disso. Vale lembrar que nos sete primeiros meses de 2023, quando a média de temperaturas foi mais alta do que no ano anterior, a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES-SP) registrou acréscimo de 102,5% nos atendimentos ambulatoriais e internações por diagnósticos relativos ao calor na comparação com 2022.
Poluição entra no jogo
O estudo também mostra que não dá para olhar só para o termômetro. A poluição do ar pesa.
Substâncias como ozônio (O₃) e benzo[a]pireno (um composto gerado na queima de carvão, madeira, tabaco e presente na fumaça de cigarro) intensificaram os efeitos das ondas de calor. Já o material particulado fino (PM2,5) e o dióxido de nitrogênio (NO₂) potencializaram os impactos do frio.
Em uma segunda análise, focada só na poluição, os resultados mostram que cerca de 13% das mortes cardiovasculares no período foram atribuídas à má qualidade do ar — o equivalente a mais de 71 mil anos de vida perdidos.
Outro ponto que chama atenção é quem sofre mais. Mulheres e pessoas acima de 65 anos apareceram como mais vulneráveis. A cada aumento mensal na exposição à poluição, o risco de eventos subia até 10%, com impacto proporcionalmente maior nesses grupos.
Hoje, o papel da poluição como fator de risco cardiovascular já é reconhecido por entidades como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a American Heart Association. As entidades destacam que a exposição, mesmo de curto prazo, pode aumentar o risco de infarto, AVC, arritmias e insuficiência cardíaca. No longo prazo, entra no processo de doenças como aterosclerose, hipertensão e até diabetes.
E agora?
Para os autores, os resultados reforçam algo que já vem sendo apontado por uma série de estudos: clima e poluição não são só uma questão ambiental, mas também de saúde.
A saída, na opinião deles, passa por estratégias coordenadas, como necessidade de estratégias coordenadas que integrem mitigação das mudanças climáticas, controle da poluição e monitoramento de populações mais vulneráveis.
O próximo passo da pesquisa, aliás, vai além da temperatura e do ar. A ideia é incorporar o chamado “exposoma” — que inclui fatores como poluição sonora e luminosa — em modelos de previsão de risco cardiovascular. Na prática, isso pode ajudar a identificar melhor quem está mais exposto e orientar ações preventivas de forma mais precisa.







