Nova safra de acessórios high-tech chineses turbina as funções clássicas do celular
Eles transformam o smartphone em câmera profissional, sistema de som e até plataforma de games
Em 2007, o mago Steve Jobs apresentou ao mundo sua maior invenção — o iPhone — com uma frase definidora da era digital: “Funciona como mágica”. De fato, o fundador da Apple deslanchava uma nova etapa da civilização, em que tudo, de nossas memórias e fotos até o modo como trabalhamos ou nos comunicamos com o mundo, encontra-se inevitavelmente imbricado com o aparelhinho. Desde então, os smartphones só ampliaram suas possibilidades, ainda que sempre sujeitos a flutuações aqui e ali — modelos menores ou maiores, com novos tipos de câmeras e lentes ou outros diferenciais se sucedem conforme os humores do mercado. Em um novo lance que parece de mágica, eis que uma onda que teve seu momento de glória nessa seara tecnológica há coisa de dez anos acaba de ressurgir com cara e apelo renovados: a oferta de acessórios feitos para turbinar funções clássicas do smartphone, como ferramenta de fotografia e vídeo, reprodução sonora ou até como plataforma para jogar videogames.
As novas linhas de gadgets em questão retomam uma ideia de 2016, quando a fabricante Motorola lançava seu Moto Z com acessórios acopláveis que garantiam funcionalidades extras aos celulares. Era possível melhorar a qualidade da câmera do dispositivo, ter uma bateria prolongada, uma caixa de som na palma da mão e até mesmo um projetor portátil. A novidade causou frisson na época, mas não emplacou como se imaginava. Após uma década relativamente esquecida, a tendência retorna com tecnologia mais evoluída — e, talvez, mais chances de se mostrar duradoura. Os celulares cada vez mais finos são acompanhados de acessórios tão funcionais quanto seu design: a Xiaomi anunciou protótipos de lentes de câmeras conectadas por magnetismo na parte de trás do aparelho, enquanto a Vivo divulgou seu kit fotográfico profissional para seus novos smartphones Jovi X300 Ultra, homologados no Brasil no início deste mês.
Nessa nova geração, os acessórios se revelam muito mais ambiciosos que no passado. As extensões de lentes para fotografia são alternativas reais a câmeras tradicionais, como aponta o site especializado Digital Camera World. Caixas de som, baterias e controles de videogame também ganharam uma repaginada sem deixar de lado a funcionalidade dos smartphones cada vez mais esbeltos e práticos.
Entre as principais mudanças em relação aos antecessores está justamente a busca por mais ergonomia, evitando os erros de modelos que ficavam com aspecto de “tijolão” ao ser turbinados com os acessórios de dez anos atrás. Além disso, encontrou-se um limite sensato para a adaptabilidade dos aparelhos — principalmente em razão do fracasso do Projeto Ara, do Google. A tentativa da big tech de desenvolver um celular totalmente modular, em que era possível trocar desde a câmera até o processador, foi por água abaixo por problemas de tamanho, peso e apelo comercial limitado. “Nesta nova onda, a modularidade não busca reconstruir o smartphone do zero, mas se concentra em acessórios e funções específicas. Assim, o usuário pode utilizar um telefone convencional no dia a dia, mas acoplar um recurso extra quando precisar”, diz Adelcio M. de Souza, docente de engenharia elétrica e de computação na EESC-USP.
Outra diferença é a entrada pesada das marcas chinesas nesse nicho. Fabricantes de lá, como Vivo, Xiaomi, Tecno e Oppo, lideram o investimento no setor. “Hoje, os aparelhos evoluem de forma mais incremental, então ficou mais difícil gerar sensação de novidade apenas com melhorias de câmera ou processador”, diz Juliano Schimiguel, professor de ciência da computação na Universidade Cruzeiro do Sul. As fabricantes ainda buscam lidar com dificuldades técnicas como o equilíbrio entre praticidade e desempenho, pois alguns acessórios são exigentes em bateria e processador. Há, por fim, a barreira do preço: na Europa, o Jovi X300 Ultra sai por 1 999 euros (11 500 reais), sem contar o kit fotográfico de 599 euros (3 500 reais). Já é possível expandir o smartphone muito além da tela — mas isso tem seu preço.
Publicado em VEJA de 29 de maio de 2026, edição nº 2997







