Receba 4 Revistas em casa por 29,90/mês

Reaproximação entre Índia e China redesenha o equilíbrio global

Após anos de choques na fronteira, os países retomam contatos e abrem espaço para negócios, impulsionadas por interesses econômicos e pressões globais

Por Ernesto Neves Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 29 Maio 2026, 06h00
Reaproximação entre Índia e China redesenha o equilíbrio global Priorizar nos meus resultados Google

Duas potências titânicas da Ásia, Índia e China passaram anos numa linha tênue, entre a rivalidade aberta, com choques na fronteira e disputa por influência, e uma interdependência econômica que nunca chegou a se romper. Nas últimas semanas, porém, autoridades dos dois países iniciaram um descongelamento gradual das relações, ditado menos por afinidade e mais pela força da interdependência. O movimento ganhou passos concretos em abril, quando, pela primeira vez desde 2020, uma delegação de empresas indianas visitou a China, com encontros em polos como Xangai e Zhejiang, mirando parcerias em baterias e energia renovável. Os dois governos também avançaram na retomada de voos diretos e na facilitação de vistos de negócios, enquanto canais militares voltaram a operar para coordenar a retirada de tropas em áreas sensíveis da fronteira. Nova Délhi, por sua vez, flexibilizou parte das restrições a investimentos chineses, permitindo aprovação automática para participações de até 10%. Também se comprometeu a acelerar análises em setores que considera estratégicos, como eletrônicos e energia solar, um ajuste pragmático diante da dependência de materiais críticos e de um comércio bilateral em forte expansão.

Infográfico sobre a disputa entre China e Índia, destacando: 2,8 bilhões de população combinada; 155 bilhões de dólares em comércio bilateral em 2025; 12% de crescimento do fluxo comercial; mais de 100 bilhões de dólares de déficit comercial anual da Índia com a China; e Índia como 3º maior importador de petróleo do mundo

Como pano de fundo dessa reabertura figura um dado difícil de ignorar. O comércio entre Índia e China não apenas resistiu às tensões, como se expandiu. Em 2025, o fluxo bilateral atingiu 155 bilhões de dólares, aproximadamente 775 bilhões de reais, um aumento de mais de 12% em relação ao ano anterior. O avanço é puxado sobretudo pelas importações indianas de componentes industriais, eletrônicos e tecnologias ligadas à transição energética. O resultado é uma relação assimétrica, mas cada vez mais profunda: a China voltou a ser o principal parceiro comercial da Índia, impondo um déficit que já ultrapassa a casa dos 100 bilhões de dólares anuais. Em meio a gargalos em setores essenciais e à pressão por acelerar sua industrialização, Nova Délhi se vê cada vez mais obrigada a uma abertura ao vizinho. “A Índia reconhece que não pode ser competitiva em setores tecnológicos emergentes sem engajamento comercial com a China, dada a dominância de Pequim em áreas como terras-raras, produtos farmacêuticos e baterias”, afirma Richard Rossow, do Center for Strategic and International Studies, de Washington.

O restabelecimento diplomático, portanto, reflete uma convergência de necessidades. De um lado, Pequim busca amortecer os efeitos de uma desaceleração econômica prolongada após a pandemia, agravada por tensões comerciais com os Estados Unidos e por um ambiente externo mais volátil. Isso reforça o interesse em estabilizar relações com vizinhos e preservar mercados.

A metrópole Mumbai, centro econômico da Índia: meta de elevar fatia da manufatura no PIB para 25%
A metrópole Mumbai, centro econômico da Índia: meta de elevar fatia da manufatura no PIB para 25% (Indranil Aditya/NurPhoto/Getty Images)
Continua após a publicidade

Do outro lado, a Índia tenta sustentar um projeto industrial ambicioso: elevar a participação da manufatura dos atuais 17% do produto interno bruto para 25%, meta central do milagre econômico prometido pelo governo de Narendra Modi. Ao mesmo tempo, a vulnerabilidade energética ajuda a explicar a reaproximação. O país do sul da Ásia é o terceiro maior importador de petróleo do mundo e o segundo maior consumidor de gás liquefeito, com forte dependência de suprimentos que passam pelo Estreito de Ormuz. A elevação dos custos de energia e as interrupções nas cadeias globais ampliam o risco de redução do crescimento. “Pequim enxerga a ordem global como instável, com as disputas com os Estados Unidos ainda sem solução, a guerra na Ucrânia em curso e as tensões no Indo-Pacífico em ascensão”, afirma Zhang Jiadong, diretor do Center for South Asian Studies da Universidade Fudan, da China. “Nesse contexto, a estabilidade regional passa a ser vista como uma prioridade.”

Interior da Índia: o fechamento do Estreito de Ormuz causa escassez no fornecimento de gás natural
Interior da Índia: o fechamento do Estreito de Ormuz causa escassez no fornecimento de gás natural (Anuwar Hazarika/NurPhoto/Getty Images)

A convergência, no entanto, avança sobre um terreno ainda repleto de fraturas. A convivência entre Índia e China foi marcada, ao longo dos últimos anos, por sucessivos embates na fronteira, com episódios de confronto direto e mobilização militar em larga escala ao longo da chamada Linha de Controle Real. O ponto mais crítico veio com o conflito de Galwan, em junho de 2020, que resultou em mortes de ambos os lados e rompeu o padrão anterior de contenção, inaugurando uma fase de violência recíproca. Desde então, apesar de mais de uma dezena de rodadas de negociações, a desmobilização tem sido apenas parcial. Ambos os países mantiveram e, em alguns casos, expandiram a infraestrutura militar em áreas sensíveis como Ladakh e Arunachal Pradesh, incluindo estradas, pistas de pouso e sistemas logísticos voltados para operação em alta altitude. Sob a liderança de Xi Jinping, Pequim passou a integrar a estabilidade fronteiriça a um plano mais amplo de projeção internacional, enquanto Modi endureceu o discurso doméstico em torno de soberania e segurança. “A relação permanece fundamentalmente marcada pela desconfiança”, afirma Tanvi Madan, pesquisadora do Brookings Institution, dos Estados Unidos.

Continua após a publicidade

Infográfico sobre

Por trás das escaramuças está uma acirrada disputa por recursos, alimentada pela escala colossal das duas economias. Índia e China somam cerca de 2,8 bilhões de habitantes, mais de um terço da população mundial, o que amplia de forma exponencial a demanda por energia, água e matérias-primas. Essa pressão recai de forma direta sobre re­giões importantes como a cadeia do Himalaia, onde nascem rios que abastecem centenas de milhões de pessoas no subcontinente indiano. Projetos chineses de barragens e gestão hídrica no Tibete são vistos em Nova Délhi como um risco estratégico de longo prazo, tanto pelo potencial de controle de fluxo quanto pelo impacto em segurança alimentar e energética. Ao mesmo tempo, a corrida por minerais críticos, como terras-raras e insumos para baterias, e pela construção de infraestrutura em áreas remotas adiciona uma dimensão econômica à rivalidade. Nesse quadro, a fronteira deixa de ser apenas uma linha em disputa e passa a refletir a competição de duas potências por matérias-primas vitais. É uma tensão estrutural que ajuda a explicar por que episódios localizados têm potencial de escalar rapidamente.

Xangai: chineses dominam setor de terras-raras e tecnologias como as de placas solares e baterias
Xangai: chineses dominam setor de terras-raras e tecnologias como as de placas solares e baterias (DuKai/Getty Images)
Continua após a publicidade

O entendimento também se insere em um jogo mais amplo de projeção de poder, no qual Índia e China disputam espaço além da relação bilateral. Os dois países ampliaram sua atuação em regiões como África, Sudeste Asiático e Oriente Médio, oferecendo financiamento, infraestrutura e parcerias tecnológicas a países em desenvolvimento. Em fóruns como o bloco Brics, essa convivência se traduz em uma cooperação funcional, voltada a temas como comércio em moedas locais e reforma da governança global, mas que não elimina a competição por liderança e influência. Ao reduzir tensões diretas, Pequim e Nova Délhi ganham margem para concentrar esforços nesse tabuleiro mais amplo, no qual a disputa é menos visível, porém mais determinante. A reabertura de canais, nesse sentido, não encerra a rivalidade, apenas a reorganiza em outra escala, em que interesses convergentes e ambições concorrentes seguem caminhando lado a lado. Pelo peso dessas duas potências, seus próximos passos exigem atenção. O que Índia e China fizerem a partir daqui tende a reverberar além da Ásia, com impacto sobre cadeias produtivas, de energia e o equilíbrio de poder global.

Publicado em VEJA, maio de 2026, edição VEJA Negócios nº 26

Publicidade

Eleições

Continua após publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Domine o fato. Confie na fonte.

15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas.

OFERTA RELÂMPAGO

Digital Completo

A notícia em tempo real na palma da sua mão!
Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
ECONOMIZE ATÉ 29% OFF

Revista em Casa + Digital Completo

Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 10,00)
De: R$ 55,90/mês
A partir de R$ 39,99/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).