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Sair da armadilha da renda média ficou ainda pior, diz autor da teoria

Envelhecimento da população, limitação de recursos naturais e mais barreiras comerciais tornam mais distante o sonho de países como o Brasil de virarem ricos

Por Juliana Elias Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 10 mar 2025, 07h06

A primeira vez em que a ideia de uma “armadilha da renda média” foi citada ao mundo foi em uma publicação do Banco Mundial de 2007. O livro, intitulado Um Renascimento do Leste Asiático: Ideias para o Crescimento Econômico, investigava o temor dos países do leste asiático, como China, Indonésia, Malásia ou Tailândia, de repetirem o que havia acontecido com a América Latina duas décadas antes: sair da pobreza e, depois, estagnar.

Quase duas décadas depois, um dos autores da teoria, o economista indiano Indermit Gill, é categórico: foram poucos que lograram sucesso e, daqui para frente, conseguir sair da renda média e finalmente se tornar um país rico será uma tarefa ainda mais difícil para a enorme massa de países e pessoas que ficaram para trás. “Se esses países se dispuserem a fazer agora algumas mudanças estruturais que deveriam ter sido feitas nos anos de 1980 ou 1990, pode ser que tenham alguma chance de conseguir um milagre e sair da renda média”, disse Gill, que hoje é economista-chefe do Banco Mundial e que falou às Páginas Amarelas da revista VEJA desta semana. “Mas é uma tarefa difícil e está ficando pior.”

Novos obstáculos

O envelhecimento da população, que reduz a disponibilidade de trabalhadores e está acelerado também entre países emergentes como o Brasil, e as cobranças muito mais rígidas referentes à sustentabilidade, são alguns dos empecilhos mencionados por Gill que estão no caminho das economias que tentam enriquecer hoje e que não existiram para aquelas que enriqueceram no século 20. “A Índia ou o Brasil não vão ter o luxo de usar carvão, gerar energia ou explorar a terra como os países ricos fizeram no passado”, disse.

A rápida tendência de “desglobalização” e o aumento do protecionismo no mundo nos últimos anos (notório, mas não restrito aos Estados Unidos) são também um retrocesso para os que ainda não têm uma indústria ou tecnologias próprias plenamente desenvolvidas e contavam com um dia te-las. “Os países que foram bem em superar a renda média foram aqueles que souberam se beneficiar desse ambiente de livre comércio. A Coreia do Sul, o Chile e a Polônia são alguns deles”, conta o economista. “Falam muito dos Estados Unidos, mas não é só lá. Índia, Brasil, China, Canadá, Itália e Alemanha são só alguns dos que também aumentaram as medidas protecionistas nos últimos anos. E uma das consequências disso é que vai ficar ainda mais difícil para países como o Brasil, que se mantiveram muito fechados quando o comércio internacional estava favorável, enriquecerem agora.”

Se abrir ao exterior via importações, investimentos estrangeiros ou intercâmbio cultural são algumas maneiras, de acordo com ele, de trazer um pouco da produtividade e do que já existe em tecnologias de fora para dentro. “É melhor aprender com quem já sabe em vez de tentar reinventar a roda”, diz.

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Uma armadilha bem conhecida

Gill, que integra a equipe do Banco Mundial desde 1993, é desde 2022 o economista-chefe da instituição, ou seja, o número 1 das análises econômicas do banco de fomento global. Gaba-se também de ser um apaixonado pelo Brasil, onde morou e trabalhou por seis anos, de 1996 a 2002, tendo conduzido pesquisas com nomes relevantes da economia nacional como Pedro Malan, Luiz Carlos Bresser-Pereira e Ricardo Paes de Barros.

Indermit Gill
Indermit Gill: “Sair da renda média é uma tarefa difícil e está ficando pior.” (./Divulgação)

O trabalho “número zero” sobre a armadilha da renda média, de 2007, foi feito junto ao colega britânico Homi Kharas, autor do livro A ascensão da classe média global, publicado em 2023, e hoje pesquisador da Brookings Institution, centro de pesquisas em desenvolvimento sediado em Washington.

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A armadilha de renda média diagnosticada por eles soa como uma arapuca bastante familiar para o Brasil, que desde os anos de 1980 patina mais ou menos em volta do mesmo lugar em termos tanto de produtividade e quanto de renda. Também se provou um fenômeno  muito comum entre a centena de países emergentes que saiu da pobreza com razoável rapidez na segunda metade do século 20, mas que, dali em diante, não conseguiria mais avançar rumo ao nível de renda do punhado das economias mais ricas.

“Os países de renda média crescem menos tanto que os mais pobres quanto os mais ricos”, afirmavam Gill e Kharas no livro de 2007. “Eles estão espremidos entre os competidores mais pobres, que têm salários baixos e dominam entre as indústria tradicionais, e os países ricos, que são inovadores e dominam as indústrias em rápida transformação tecnológica.”

O Banco Mundial considera um país de renda média aqueles que têm PIB per capita entre 1 000 dólares e 14 000 dólares atualmente, ou algo como 15% da renda média dos Estados Unidos. No ano passado, o banco revisitou a armadilha da renda média em um novo relatório sobre o mundo em desenvolvimento, para fazer um balanço do que aconteceu com aqueles países. As conclusões foram pouco animadores: nos mais de trinta anos desde 1990, apenas 34 conseguiram subir da faixa intermediária para a mais alta, enquanto 108 continuaram presos no meio.

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