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Receitas literárias: novo livro desvenda a gastronomia por trás de ‘Dom Quixote’

A ideia é comprovar a permanência das tradições na cozinha medieval espanhola da região de La Mancha

Por André Sollitto Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 23 mar 2025, 08h00

Publicado em duas partes em 1605 e 1615, O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha, obra-prima de Miguel de Cervantes, é um dos pilares da literatura ocidental. A narrativa acompanha Alonso Quijano, um nobre que lê tantos romances de cavalaria que perde o juízo e decide se tornar um cavaleiro andante a vagar por terras espanholas. Ao lado de Sancho Pança, trabalhador de fazenda transformado em escudeiro, Quixote enfrenta gigantes (que não passam de moinhos de vento) e outros perigos. Os significados do colosso de Cervantes já foram investigados à exaustão, por especialistas de todo o mundo, em tudo quanto é ângulo possível.

Há, porém, uma fascinante brecha ainda a ser explorada: a gastronomia por trás da aventura picaresca, os sabores literários dos pratos regionais da região de Castilla-La Mancha, localizada no centro do país, sendo Toledo uma de suas províncias mais conhecidas. Foi essa a quixotesca missão assumida pelo escritor e jornalista gastronômico J.A. Dias Lopes em Os Delírios de Dom Quixote — Andanças, Duelos e Comidas do Genial Cavaleiro Andante. A partir de uma viagem para a Espanha, ele verificou que muitos dos pratos servidos há quatrocentos anos continuam queridos entre habitantes e turistas, tanto em endereços populares quanto em restaurantes modernos. É prova da vigorosa permanência de uma culinária robusta, que mantém a tradição e a um só tempo serve de inspiração para gênios criativos da desconstrução, como Ferran Adrià.

CLÁSSICO - O cavaleiro andante e seu fiel escudeiro em ilustração de Gustave Doré: romance fundador
CLÁSSICO – O cavaleiro andante e seu fiel escudeiro em ilustração de Gustave Doré: romance fundador (Gustave Doré//)

Brotam receitas como duelos y quebrantos, cozido de carne de vaca, cavalo ou burro enriquecido com miolos de cordeiro, ovos, banha, chouriço, toucinho e outros pertences de porco; a olla podrida (que significa panela potente), rica mistura de caldo, carnes e legumes. O segredo para que pratos tão antigos continuem no menu é a simplicidade e o sabor, dois requisitos insubstituíveis. “A qualidade está intimamente ligada à excelência dos ingredientes regionais”, diz Dias Lopes. “São tantos e tão variados que parece impossível descrever todos eles e suas respectivas aplicações culinárias.” Com as hortaliças, por exemplo, se faz o pisto manchego, fritada de tomate, pimentão, cebola e ovos. Com verduras e legumes, preparam-se as perdices estofadas. São delícias que mostram a origem pastoril das invenções, talhadas para garantir o sustento na lida na roça, como bem mostraram para a humanidade Dom Quixote e Sancho Pança, embebidos de quimeras.

Ainda hoje, aliás, a economia local é centrada na agricultura. O trigo é a principal cultura de La Mancha, apesar da enorme riqueza de plantações e manejo de gado. O alimento mais representativo é o queijo manchego, feito com o leite de ovelhas da raça homônima, considerado um dos melhores do mundo. “Os queijos, dispostos como tijolos, empilhados, formavam uma muralha”, descreve Cervantes em certa passagem do livro. A região é celebrada também pelo vinho, pelo alho (é a principal produtora da Espanha), pelo açafrão e pelas cobiçadas trufas negras. Com contornos poéticos, a comida dos agricultores espanhóis ficou gravada na literatura — e segue viva.

Publicado em VEJA de 21 de março de 2025, edição nº 2936

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