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BC podia usar mais ferramentas anti-inflação que não só juros, diz ex-diretor

Para Luís Eduardo Assis, usar apenas a taxa Selic para controlar os preços é pouco eficaz e "samba de uma nota só"

Por Juliana Elias Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 27 mar 2025, 07h09

Calibrar a Selic, a taxa básica de juros do país, é o principal e, em realidade, basicamente o único mecanismo utilizado pelo Banco Central brasileiro na sua missão de impedir o descontrole da inflação e mante-la dentro das metas estabelecidas pelo país. Para o ex-diretor do BC Luís Eduardo Assis, trata-se de um leque muito pequeno – além de pouco eficaz em muitas situações – dentro de todas as ferramentas de política monetária que a literatura sobre o assunto já prevê e a que bancos centrais de diversos países recorrem. “A política anti-inflacionária brasileira é um samba de uma nota só; só tem a Selic”, disse Assis em conversa com VEJA. Assis foi diretor de política monetária do Banco Central entre 1990 e 1991 e já passou pela cúpula de grupos financeiros como Citibank, HSBC e Fator, além de integrar o conselho de grandes empresas.

A taxa de juros se consolidou nas últimas décadas, de fato, como a principal ferramenta no controle da inflação em todo o mundo. A noção básica e quase inexorável é que, quanto maiores os juros, mais caro fica o crédito, o que desestimula o consumo e os investimentos, vai aos poucos esfriando a economia e a demanda até, por fim, reduzir uma inflação que esteja mais alta do que o desejável.

Para Assis, entretanto, esse remédio não é plenamente eficiente em muitas situações, em especial quando as altas de preços são causadas por choques de oferta ou fenômenos externos, sobre os quais os juros domésticos têm pouco efeito. Por atuarem sozinhos, os juros acabariam tendo que ficar altos demais em determinados momentos de picos ou persistência inflacionária – como acontece atualmente no Brasil, onde a inflação deve passar quase o ano inteiro acima dos 5%, para uma meta que é de 3%, a Selic está acima de 14%, o maior nível em uma década, e, para dificultar ainda mais, o governo nada na direção contrária ampliando o crédito e turbinando a renda da população.

“Esse instrumento de combate à inflação que tem sido utilizado nos últimos anos pelo Banco Central é bastante ineficaz”, disse ele sobre o sobe e desce da taxa básica de juros. “Boa parte da inflação brasileira tem relação com preços internacionais de commodities (como petróleo e alimentos), que têm a ver também com a taxa de câmbio e as mudanças climáticas, e esses são fenômenos que não obedecem à política monetária. A Selic alta ou baixa não vai impedir que o preço dos produtos agrícolas suba se tiver uma seca ou uma inundação.”

Entre os recursos complementares mencionados pelo economista, e pouco usados ou inexistentes na agenda contra a inflação do BC, estão medidas de enxugamento de crédito e também o afinamento na contabilidade da inflação. Desde 1999, quando foi estruturado o sistema de metas e controle da inflação no Brasil, a missão do BC é colocar o IPCA, indicador oficial de preços calculado pelo IBGE, dentro da meta.

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Em outros países, como nos Estados Unidos, por exemplo, o Federal Reserve, banco central do país, se guia não pelo índice de preços bruto, como é o nosso IPCA, mas nos chamados núcleos desse índice, que são manipulações estatísticas que retiram do resultado os itens mais voláteis, como alimentos, energia ou passagens aéreas, e, assim, evita a influência de choques pontuais na decisão dos juros, que têm efeito no médio e longo prazo.

É uma proposta que, em meio aos juros altíssimos, à crise de preços nos alimentos e o desespero do governo em limar a inflação em aceleração enquanto sua aprovação derrete, tem sido sugerida pelo vice-presidente Geraldo Alckmin. Tecnicamente, faz sentido, mas o ‘timing’ é visto com ressalvas por economistas, já que, se feito de maneira atabalhoada, a adoção dos núcleos poderia antes levar a uma crise de credibilidade e de câmbio do que a um alívio na rigidez da política monetária.

Outra particularidade do Banco Central brasileiro mencionada por Assis é de a autarquia ter um mandato único: sua missão é essencialmente manter a inflação na meta. Em outros BCs, também caso do Fed, a autoridade monetária deve vigiar tanto os aumentos da inflação quanto do desemprego, o que, na prática, acaba contrabalanceando as altas dos juros. “A atividade econômica é um mandato secundário para o Banco Central no Brasil, bem secundário”, disse Assis.

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“São coisas que se fazem no mundo inteiro, que estão no livro-texto. Não é tablita, não é congelamento de preços”, disse o economista. “A ampliação do escopo da política anti-inflacionária poderia ser discutida no Brasil, mas acho difícil que entre na pauta atualmente.”

Todas são medidas, de acordo com ele, que poderiam ajudar a moderar os juros no momentos de inflação em alta. Mas, todas elas juntas, ainda assim são apenas paliativos para um dos principais problemas: ter um governo que segue estimulando a economia e ampliando os gastos públicos ao mesmo tempo em que o país tem o problema de uma inflação alta para resolver.

A política monetária está sendo antagonizada pela política fiscal , tanto pela ampliação dos gastos quanto, mais recentemente, pela ampliação do crédito“, disse Assis. “O resultado disso são juros que precisam ser mais altos e por mais tempo.”

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